segunda-feira, 10 de maio de 2010

ABSABER, Aziz. Os domínios da natureza no Brasil

ABSABER, Aziz. Os domínios da natureza no Brasil: potencial idades paisagísticas
ABSABER, Aziz. Os domínios da natureza no Brasil: potencial idades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial. 2003

POTENCIALlDADES:PAISAGENS BRASILEIRAS A paisagem é a herança (de processos fisiográficos e biológicos) e patrimônio coletivo dos povos que as herdam. É o território de atuação das suas comunida¬des.

1. Os grandes domínios paisagísticos brasileiros
O território brasileiro apresenta um mostruário complexo de paisagens ecológi¬cas do mundo tropical. Existem seis grandes dominios paisagísticos. Quatro são intertropicais e dois subtropicais:
1) Terras baixas florestadas da Amazônia.
2) As depressões interplanálticas.
3) Os 'mares de morros".
4) Os chapadões cobertos por cerrados e penetrados por florestas galerias. 5) Os planaltos das Araucárias.
6) Domínios das pradarias mistas.

2. "Mares de monros", cerrados e caatingas:
Geomorfologia comparada

Existem, grosso modo, três imensos domínios morfocIimáticos. São recobertos por três das principais províncias fitogeográficas do mundo tropical:
1) Domínio das regiões serranas, de morros mame/anares do Sudeste: Uma área de climas tropicais e subtropicais úmidos. Inclui a zona da mata, atingindo o sul e a parte oriental do Brasil.
2) Domínio dos chapadões tropicais do Brasil Central: Area sub-quente. de re¬gime pluviométrico e duas estações (verões chuvosos e invernos secos). Pre¬sente na zona dos cerrados e florestas galerias.
3) Domínios das depressões intermontanas e interplanálticas do Nordeste semi¬árido: É a área subequatorial e tropical semi-árida. Abrange a zona das caatin¬gas.
3. Nos vastos espaços dos cerrados
Nas áreas de cerrados (muito destruídas, atualmente, pela ação antrópica), exis¬tiam florestas baixas, de troncos finos e esguios. As principais regiôes que sofre¬ram as alterações foram: Triângulo Mineiro, Mato Grosso (sentido leste-oeste e sul-norte) e o centro de Goiás.Os cerrados, também chamados de campos cerra¬dos, formam um conjunto semelhante aos cerradões. Os.climas apresentam o mesmo regime: as temperaturas apresentam médias anuais mínimas entre 20 e 22"C e máximas entre 24 a 26OC. A umidade do ar atinge níveis muito baixos no inverno e muito elevados no verâo.
A aparência xeromórfica de muitas espécies do cerrado é falsa: trata-se de um pseudoxeromorfismo.
A combinação de fatores fisicos, ecológicos e bióticos que caracterizam o cerra¬do é, na aparência, homogênea, extensível a grandes espaços. É uma área for¬mada nâo apenas por chapadôes, mas trata-se de um dominio morfocIimático onde ocorre a maior extensividade de formas homogêneas relativas de todo o Planalto Brasileiro (Planalto Central).
Durante um longo período geológico (de 12 a 18 mil anos), as principais mudan¬ças ocorridas foram:
- O conjunto de cerrados, no Planalto Central, era menor e menos continuo.
- Chapadas areníticas, de Urucaia, tiveram climas secos. cerrados degradados, estepes ou manchas de caatingas.
- Catingas predominavam no norte das bordas acidentadas (região de Brasília). - No extremo sul de Mato Grosso, onde existem campos de vacaria, ocorriam sub-estepes e campos limpos, com climas mais frios e secos.
- Onde ocorrem as Matas de Dourados, deveriam ocorrer bosques subtropicais. - Os cerradões formam um patrimônio biológico arcaico. Quando degredados por ações antrópicas, não se refazem facilmente e não se recompõe. Os cerra¬dos, por sua vez, foram deles originados e resistem às ações antrópicas.

4. Domínío Tropical Atlântico
No conjunto do território intertropical e subtropical brasileiro, destaca-se o contí¬nuo norte-sul das Matas Atlânticas, na categoria de segundo complexo principal. Originalmente, cobria o sudeste do Rio Grande do Norte e o sudeste de Santa Catarina, incluindo três enclaves: as matas biodiversas da Serra Gaúcha, as florestas de Iguaçu e as do extremo oeste dos planaltos paranaenses.
As florestas tropicais costeiras formam áreas de transição com as áreas de caa¬tingas, cerrados, cerradôes campestres e planaltos de araucárias. Uma das mais famosas áreas de transição entre a zona da mata e os sertões é conhecida corno 'agreste'.
As matas tropicaís estão associadas às altas temperaturas e forte umidade (exem¬plo: Serra do ltapanhaú, em Bertioga, com índices pluviométricos superiores a 4.500 mm anuais
Atingem a linha da costa, cobrindo tabuleiros no Nordeste, esporões e costôes ria Serra do Mar (pães-de-açúcar, penedos e pontões rochosos). Entre as matas tropitais e o litoral, destacam-se formações de restingas (faixas arenosas com coberfura floristica).
Minas Gerais (Vale do Rio Doce, Serra do Mar e Mantiqueira - área típica de mares de morro) recebe a denominação de Zona da Mata Mineira.
Em São Paulo, às matas tropicais penetram o ínterior dos planaltos, onde for¬mam mosaicos e matas em solos calcários e de terras roxas. Apare¬cem penetrações de araucárias nas grandes altitudes da Serra da Mantiqueira e no Planalto da Bocaina.
Na Serra do Jardim (em Valinhas, Vinhedo) nos altos da Serra do Japí (em Jundiaí), nos campos e matacões (em Salto e ltu) e na Serra de São Francisco (em Rio Claro), ocorrem mini-redutos de cactáceas e bromélias.
Por fim, é necessário registrar as matas tropicais densas do norte do Paraná em dois trechos: no Pontal do Paranapanema e no litoral, com penetrações na faixa ocidental de Santa Catarina.
No Rio Grande do Sul, há a ocorrência de planaltos no norte gaúcho e na Serra Gaúcha (Aparados). O domínio dos mares de morros constitui um fator para o conhecimento rnoriogenético das áreas intertropicais.

5. Amazônia brasileira: um macrodomínio
A Amazônia destaca-se pela continuidade de suas florestas, pela ordem de gran¬deza de sua principal rede hidrográfica e pela variação de seus ecossistemas; tanto em nível regional corno de altitude. Trata-se do cinturão de maior diversida¬de biológica do planeta.
Tem um domínio permanente da massa de ar úmido, de grande nebulosidade, de baixa amplitude térmica e de ausência de pronunciadas estações secas em quase todo os seis subespaços regionais.
Nas áreas periféricas, observa-se forte sazonalidade. incluindo a 'triagem., que vai desde o oeste de Rondônia até o Acre. Essa quantidade de água, na Amazô¬nia, é resultado direto da excepcional pluviosidade: a bacia Amazônia corresponde a 20% da água doce do planeta.
Os critérios populares para a classificação da malha hidrográfica têm valor cien¬tífico: as cores dos rios, a ordem de grandeza dos cursos d'água, sua largura, volume e posição fisiográfica, assim como o sentido, continuidade e duplicidade da correnteza.
As imagens de satélites apontam uma visualização mais completa e integrada do caótico quadro de produção de espaços antrópicos sobre a natureza da re¬gião. Várias atividades são responsáveis pela devastação da Amazônia: fracas¬sos agropecuários, rodovias, Ioteamentos de espaços silvestres com ausência administrativa, derrubadas e queimadas.

6. Caatinga: o domínio dos sertões secos
O domínio das caatingas é um dos três espaços semi-áridos da América do Sul. A caatinga é a área seca mais homogênea do ponto de vista fisiográfico, ecológi¬co e social.
As razôes da existência de um grande espaço semi-árido, insulado num quadrante de um continente predominantemente úmido, são complexas.
Os rios do Nordeste chegam ao mar (são exorreicos); são intermitentes, periódi¬cos, com solos salinizados (Rio Grande do Norte: estuários assoreados para a produção de sal) e depende das condições climáticas.
Poucos rios são perenes (rios que vêm de longe) como o São Francisco ("Velho Chico", "Nilo Caboclo. ou 'Brasileiro') e o Parnaíba (entre o Maranhão e Piauí). A população se concentra nas áreas de maior umidade: entre o sertão, uma área de criação extensiva de gado, e o agreste, terras para a criação de caprinos (produção de leite) e sequeiros - plantas forrageiras como milho, feijão e mandioca.
Essa região teve fortes fluxos de migração entre 1950, 1960 e 1970.
Tem um comércio intenso no interior, representado por grandes feiras: Caruaru, Feira de Santa na, Juazeiro do Norte e outras.
A iniciativa estatal foi de grande importância para a economia e sociedade nor¬destinas. Houve a construção de grandes usinas hidrelétricas, estimulos à in¬dustrialização, programas de açudagem, irrigação, perfuração de poços, irriga¬ção das áreas de sequeiros e revisão dos lençóis d'água.

7. Planaltos de Araucárias e pradarias místas
O Brasil Meridional é uma área onde a tropicalidade se perde.
Area de cobertura vegetal, com bosques de araucárias e climas temperados e úmidos, principalmente nas grandes altitudes planálticas. Tem rios perenes com dois períodos de cheias.
Ao lado dessa cobertura vegetal, aparecem formações de cerrados, matas tropi¬cais e pradarias mistas.
Para entender a geologia e a geomorfologia do sul do Brasil, é necessário partir do perfilleste-oeste dos três estados do sul do Brasil:
1) Primeiro Planalto: Área cristalina que acompanha o Atlântico (Planalto do Paraná, Serra Geral e Aparados).
2) Segundo Planalto: .Área sedimentar com depressões e chapadões. Possui áreas carboniferas em Santa Catarina, Uruçanga, Criciúma, Lauro Múller e coli¬nas do baixo Jacui (no Rio Grande do Sul). Formações uniformes, como é o caso de Vila Velha, no Paraná.
3) Terceiro Planalto: Área de solos sedimentares (arenito) e vulcânicos (basaltos); região de cuestas e solos de terra roxa. No Rio Grande do Sul, aparecem colinas onduladas conhecidas como coxilhas, formando a Campanha Gaúcha.
O povoamento do sul do pais compõe um capitulo á parte:- Colonização alemâ: desde o Vale dos Rios dos Sinos até os sopés das serranias, rincões de Nova Petrópolis, Canela e Gramado. Em Santa Catarina, no Vale do rio ltajaí-Açu.
- Colonização italiana: região dos vinhedos (Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Farroupilha), dirigindo-se também para o oeste e norte do Rio Grande do Sul e para o oeste de Santa Catarina e do Paraná.- Luso-brasileiros: de Laguna até a região costeira, indo também para a barra da Lagoa dos Patos (Colônia de Sa¬cramento).-Açorianos: colonizaram as coxilhas da depressão de Porto Alegre até o rio Pardo e Santa Maria, destaque para a região metropolitana de Porto Alegre (Porto dos Casais), importante centro cultural universitário, industrial e porto fluvial
8. O Domínio dos cerrados
Paisagem que domina grande parte do Brasil Central, também ocorre em Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Piaui, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Roraima e Pará.
. Apresenta uma vegetação típica e um clima tropical úmido e seco.
É o segundo maior bíoma do Brasil. Possui vários aspectos fisionômicos: árvo¬res (cerradões), cerrados e campos sujos (vegetação arbustiva e herbácea). Vegetação com variedade de espécies: árvores de troncos finos, retorcidos e de cascas grossas (cortiça).
A densidade da drenagem nessa região é baixa (o Planalto Central é o divisar d'água). Os rios são perenes, do tipo fluvial tropical (cheias de verão e vazantes de inverno).
Os componentes de relevo na área central dos cerrados são produtos de condicionantes climáticos.
Quanto ao relevo, o Planalto Central é a principal unidade geomorfológica, com¬posto por terrenos cristalinos (erodidos) e sedimentares (chapadas e chapadões). Nesse dominio, em função da existência de solos ácidos, sempre prevalece a prática da pecuária extensiva para o corte, o que determina um grande desmatamento para a formação de pastagens.
Recentemente, verifica-se a correção dos solos ácidos (calagem) e o inicio de uma atividade agricola mais intensa (soja, milho, tomate, laranja).
Ao sul desse domínio, observa-se a existência de solos mais férteis (terra roxa), com intensa atividade agrícola (regiâo de Dourados e Campo Grande, no Mato Grosso do Sul).
Além das atividades agrárias e da pecuária extensiva, a expansão urbana e a construção de rodovias e ferrovias contribuem para a ocupação irregular dos cerrados.
É necessário observar três diretrizes básicas para conciliar desenvolvimento e proteção dos patrimônios genéticos:
1) Exigir a preservação dos cerrados e cerradões localizados nas áreas eleva¬das dos interflúvios (bancos genéticos).
2) Preservação de faixas de cerrados e campestres nas baixas vertentes dos chapadões.
3) Congelamento total do uso dos solos que se encontram nas faixas de matas de galeria, com vistas á preservação múltipla das faixas aluviais florestadas, as¬sim como das veredas existentes á sua margem.
9. Domínio da natureza e famílias de ecossistemas
O conceito de ecossistema foi introduzido na Ciência por Arthur Tansley, em 1935. É o sistema ecológico de uma região, que envolve fatores abióticos e bióticos do local. O termo "bioma" passou a ser utilizado por biólogos de vários países, ás vezes se confundindo com o termo ecossistema. Começou a ser usado com su¬perficialidade e se desdobrou em conceitos de maior aplicabilidade e versatilida¬de: Bioma, zonobioma, psamobioma, helobioma e rupreste bioma.o Brasil, os biólogos deram preferência ao termo bioma, notadamente rupreste bioma.
Em 1968, George Bertrand publicou uma tipologia de espaços naturais, desdo¬brada em zonas de paisagens ecológicas, domínios (macro) regionais de natu¬reza e regiões diferenciadas intradomínios. Agregam-se três termos na tentativa de substituir os termos ecossistemas / biomas: geossitemas, geofáceis e geótipo.

ANEXOS
I. Relictos, Redutos e Refúgios (os caprichos da natureza e a capacidade evocadora da terminologia cientifica)
Em linguagem simbólica, usamos expressões conceituais para designar "ilhas" de vegetação: relictos, enclaves, redutos e refúgios.
- Relictos: Aplicada para designar qualquer espécie vegetal. Encontrada em uma localidade específica e circundada por vários trechos de outros ecossistemas. - Enclave, redutos e refúgios: Manchas de ecossistemas típicos de outras pro¬víncias, encravadas no interior de um dominio de natureza diferente - refletem a dinâmica de mudanças dimáticas e paleoecológicas.

II. Cerrados e Mandacarus
Área de Salto-Itu e referência para investigações envolvendo condições climáti¬cas do passado.
Essa região e seus arredores apresentam uma das mais importantes paisagens fitogeográficas e geológicas do Brasil. Encontra-se grande cobertura vegetal, ecossistemas de cerrados cactáceos residuais (mandacarus), matas de fundo de vales e encostas baixas.
A presença de caatingas na região é anterior à presença dos cerrados, das man¬chas florestais biodiversas do fundo dos vales regionais e dos setores das serra¬nias de São Roque (Jundiai). Indui as laterais da Serra do Jardim (Valinhos¬Vinhedo) e da Serra do Japi (Jundiaí).
Provavelmente, a região apresentava, em um passado geológico, períodos semi¬áridos.

III. Paisagens de exceção e canyons brasileiros Paisagens de exceção constituem fatos isolados, de diferentes aspectos físicos e ecológicos inseridos no corpo das paisagens naturais.
Destacam-se:
1) Exemplos de topografia ruiniformes:
- Piauí: Sete Cidades de Piracuruca e Serra da Capivara.
- Sudeste de Goiás: Torres do Rio Bonito.
- Norte de Tocantins: Segundo Planalto do Paraná (Vila Velha).
- Mato Groso: Chapada dos Guimarães.
- Pontões rochosos do tipo pão-de-açúcar.
- Peóedos ou "Dedos de Deus", no Rio de Janeiro, Teresópolis, Vitória e pontos da Serra do Mar.
2) Icebergs, sob a forma de montes e ilhas rochosas, pontilham nos domínios das caatingas: em Milagres (Bahia), Quixadá, Jaguaribe e Sobral (Ceará) e re¬giâo de Patos, no alto do sertão da Paraíba.
3) Maciços elevados (900-1000 m), voltados para ventos úmidos do leste e su¬deste nos sertões secos, apresentam florestas tropicais de encostas e "pé-de-e¬serra".
4) Canyons brasileiros envolvendo grandes variedades de nomes: gargantas, rasgões, boqueirães, grutas largas, sovacães, itambés, passos fundos, desfila¬deiros e estreitos. Estão no Piauí, Paraná e sudeste de Goiás.
5) O maciço de ltatiaia (RJ) e a alta meseta do Pico de Roraíma são exceções nos altiplanos do Brasil.
6) No caso das planicies, a exceção vai para a Planicie do Pantanal.

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